Por Araken Vaz Galvão
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Matam-se cavalos, quando feridos
Foi na década de 70, quiçá no ano de 72, que assisti, em Montevidéu, ao filme “El Baile de las Ilusiones” (They Shoot Horses Dont They?), dirigido por Sydney Pollack, de 1970, com Jane Fonda, baseado no romance homônimo de Horace McCoy, um clássico noir. Esse filme, cujo título em português foi “A Noite dos Desesperados”, apesar da obra que lhe deu origem, não era um noir, – enquadrar-se-ia melhor no campo dos dramas de época ou de costumes, porém ainda assim ou por isso mesmo, causou-me um profundo impacto, em particular por seu final, imprevisível e brutal, desses que faz com que saíamos do cinema com um gosto amargo na boca.
Vivíamos os momentos cruciais da guerra do Vietnã e o império, ao pressentir a derrota como inexorável, rugia com a força agônica das feras enjauladas. Era a primeira vez, diga-se de passagem, que as monstruosidades praticadas por seus soldados (praticadas por todos os soldados em todas as guerras!) eram mostradas em tempo real – e ao vivo e as cores (como se diz no jargão da TV) diretamente nos lares do povo dos Estados Unidos. E sua classe média – tão arrogante e patrioteira em situações similares do passado – debatia-se entre a perplexidade e o assombro frente àqueles horrores. Não demorou muito, o espanto transformou-se em indignação e esta em vivas demonstrações de repúdio ao massacre de raquíticos vietnamitas por soldados parrudos e bestializados pela violência. Além das demonstrações coletivas de repúdio à brutalidade daquele embate entre Davi e Golias, com Golias apanhando e apanhando feio, o povo do Estados Unidos buscava desesperado uma explicação, não só para o barro de que era constituído os pés do colossal ídolo, mas e principalmente para o olor fétido que emanava deles.
Foi nesse período que mais se discutiu (e se criticou) as mazelas do passado ianque; foi quando mais se fez filmes em que eram mostradas as atrocidades cometidas, em particular contra os ameríndios – um dos maiores genocídios da história – que quase os levou à extinção.
Foi a época dos intelectuais negros como Martin Luther King e de Ângela Davis, de estudantes radicais como Carl Carmichael e dos aguerridos Panteras Negras, época das deserções em massa do serviço militar, época em que os intelectuais brancos de lá se indignavam se insurgiam contra o chamado establishment, numa atitude que repercutia entre determinados intelectuais do nosso país, fazendo-os ecoar protestos e repetir mantras.
O filme de Pollack foi um vigoroso grito dessa indignação, felizmente não foi o único, mas não há dúvida que foi um dos mais fortes. Incompreensivelmente, porém, faz tempos que ele anda fora de circulação, nunca mais se ouviu – nem se viu – falar dele. Aqui no Brasil, então... Por quê?
Dentro dessa linha de cinema, dos Estados Unidos, que se poderia chamar, com alguma benevolência, de protesto, seria bom citar ainda, entre outros, o filme do diretor (e ator) Alan Arkin(1) – “Pequenos Assassinatos” – além de “Corrida contra o Destino(2)” e “Ardil 22(3)”. Todos eles encontram-se quase que completamente esquecidos, os quais também, salvo melhor informação, não foram lançados em DVD.
Ao lembrar desses velhos filmes, além de ter a intenção de trazer à memória de algum cinéfilo a necessidade de revê-los, tenho a intenção de fazer uma pergunta – a qual deixarei no ar – quando começarão a aparecer filmes que mostrarão a indignação de parcela do povo dos Estados Unidos que repudia o massacre que os soldados de Bush estão perpetrando no Oriente Médio – Afeganistão, Iraque e Palestina? Quando...?
Agora mais recentemente, podemos perguntar, quando começarão a aparecer filmes que mostrarão a indiferença de parcela do povo dos Estados Unidos que não se anima a repudiar a titude dúbia de Obama que – lobo vestido com pele de cordeiro – faz ouvidos de mercador frente aos gritos do povo da Palestina frente ao massacre que os soldados de Israel estão perpetrando no Oriente Médio. Enquanto as guerras do Afeganistão e no Iraque continuam? Quando...?
© Araken Vaz Galvão
(1) O título original desse filme foi Little Murders, lançado em 1970. Arkin, que já estivera no Brasil tentando fazer um filme sobre Arigó. Como ator, voltou ao Brasil, onde fez o papel do embaixador gringo seqüestrado no filme nacional “O Que é Isso, Companheiros“, de Bruno Barreto.
(2) Dirigido por Richard C. Serafian, título original Vanishing Point, de 1971, cuja tradução literal seria – segundo informação da Internet – “Ponto de Desaparecimento”.
(3) Dirigido por Mike Nichols, de 1970, título original, Catch 22. Esta palavra também pode significar “armadilha”.
A Última Caçada
Velho faroeste, uma vez que foi feito em 1956, dirigido por Richard Brooks, “A Última Caçada” (The Last Hunt), é um desses filmes que, mesmo sendo de um gênero que, ao que tudo indica, está em decadência, pois só esporadicamente volta ser filmado e que, porém, ainda conserva muitos dos seus velhos admiradores, pode ser revisto, com deleite, sempre. O tema, embora tenha sido bastante explorado por esse tipo de filme, é mostrado sob ângulo bastante inovador, ainda hoje, passados tantos anos.
Seu diretor, Brooks, ainda que não tenha sido dos mais cultuados de Hollywood, verdade seja dita, sempre foi bastante respeitado, em particular entre os cinéfilos de certo nível e, em particular, entre os críticos europeus.
Brooks, que foi um diretor bastante produtivo, fez dezenas de filmes, entre eles, três westerns(1), sendo que “A Última Caçada”, foi o primeiro e trouxe a sua inconfundível marca. Sobre esse cineasta o estudioso, Rubens Ewald Filho(2), depois de afirmar que Brooks foi diretor e roteirista, tendo, inicialmente trabalhado em fitas de Maria Montez(3), após ter participar da guerra (a II Grande), depois de ter escrito alguns romances, escreveu roteiros para diretores importantes, como Jules Dassin, John Huston, entre outros. Consta de sua filmografia, filmes como “À Procura de Mr. Goodbar (Looking for Mr. Goodbar), de 1977, que causou polêmica (foi acusado de moralista) por narrar a história real de uma mulher sexualmente liberada que é assassinada por um de seus diversos amantes”.
Nos dois outros faroestes que Brooks dirigiu, o enfoque dado e a temática fogem bastante as regras do western clássico. Se no segundo deles, “O Risco de uma Decisão”, centrado em algo que os estadunidenses adoram, jogo e consequentemente, apostas, no ultimo o tema foi o da subjugação da mulher (mexicana) por um poderoso fazendeiro dos Estados Unidos, verdadeiro vilão da história.
Brooks foi mesmo um diretor com enfoque muito pessoal em seus filmes, com os seus faroestes não fugiu à regra, como ocorreu nessa sua “última caçada” que – sem desejar fazer blague – foi sua primeira incursão neste gênero. O qual, curiosamente, talvez tenha sido a mais original, uma vez que, conforme foi dito em linhas anteriores, “O tema, embora tenha sido muito explorado por esse tipo de filme, é mostrado sob ângulo bastante inovador, ainda hoje, passados tantos anos”.
Refiro-me as caçadas de bisões – nos filmes chamados de búfalos –, verdadeiros massacres da fauna, feitos com dois objetivos principais (e fundamentais): Conseguir dinheiro com a pele daqueles formidáveis animais (dos quais só se aproveitavam, além do couro, a língua(4)), proporcionando uma verdadeira carnificina, cujo resultado era infinitas ossadas que, de forma sinistra, embranquecia as pradaria.
E como consequência daquelas infinitas ossadas, estava a política de genocídio da elite governante dos Estados Unidos. Matavam-se os bisões para que os índios – que se salvassem do extermínio provocado pela balas dos rifles – morressem de fome.
No filme há várias situações irônicas. Espécie de denúncias veladas. Vivia-se o pós-guerra, o temor ao macarthismo(4) ainda imperava, Brooks deve ter sido sutil em sua crítica à política de extermínio aos índios, consubstanciada na máxima: “Índio bom é índio morto”. Por isso, talvez, é que é mostrado no filme que, enquanto os brancos matavam os bisões – fonte quase que única de proteínas dos índios –, esses eram presos em verdadeiros campos de concentração, as famosas reservas, onde o governo federal mandava bois para que eles se alimentassem. Pode haver ironia maior?
Claro que as entregas demoravam, fosse por prática contumaz da burocracia governamental, fosse por corrupção, e os índios iam morrendo lentamente. Isso é mostrado no filme, embora – como foi dito – de forma sutil. Ademais, tinha sempre um homem branco bom para lutar contra essas injustiças.
Foi nessa época, a que o filme foi feito, que começou a aparecer nos Estados Unidos as primeiras demonstrações (tímidas) contra o genocídio praticado contra os peles-vermelha, vistas em alguns filmes, como foi o caso (surgindo bem mais tarde), de “Crepúsculo de uma Raça” (Chayenne Autunm), de 1964, dirigido por John Ford, o maior defensor cinematográfico do massacre dos índios, que, por sinal, contou com o mesmo ator de “A Última caçada”, Richard Widmarck.
No entanto, somente com a derrota na Guerra contra o Vietnã, foi que a questão do massacre dos índios levantada de forma contundente, com os casos de “Quando é preciso ser Homem” (Soldier Blue), de 1970. Este filme, junto com “O Pequeno Grande Homem” (Little Big Man), também de 1970, dirigido por Arthur Penn.
Mas, vendo o filme de Brooks em perspectiva, não podemos deixar de constatar que ela foi um pioneiro naquele tipo de protesto.
© Araken Vaz Galvão
(1) Os outros dois foram “O Risco de uma Decisão” (Bite the Hawn), de 1975; “Os Profissionais” (The Professionals), de 1986.
(2) Dicionário de Cineastas, 2ª Edição, L&PM Editores, Porto Alegre, 1988, pág. 71/2.
(3) Atriz de escasso talento e bastante beleza, Maria Montez, falecida em um acidente aos 39, anos trabalhava em filmes relacionados com “As Mil e Uma Noites”, a moda Hollywood, quase sempre acompanhada de um ator indiano, de nome Sabu, e com Jon Hall, Turhan Bey como foi o caso, em “O Ladrão de Bagdá” (The Thief of Bagdad), dirigido por Michael Power, de 1940, com co-direção de Ludwig Berger.
(4) É curioso que, neste filme, aparece, pela primeira vez – creio – a forma como esse músculo era conservado. Forma que em muito se assemelhava ao sistema usado pelos nosso índios, o moquém. Um tipo de desidratação a céu aberto, uma vez que a fumaça, usada nos defumadores, não ficava aprisionada.
(4) Período político obscurantista surgido nos Estados Unidos, que teve seu auge paranóico entre os anos de 1950 a 1954, cujo principal mentor foi o senador Joe McCarthy – Joseph Raymond McCarthy (1908-1957) ou Joseph McCarthy –, político de extrema-direita, que moveu uma sistemática campanha de perseguição – caracterizada pela intimidação para incentivar a delação –, sobretudo contra artistas, intelectuais ligados ao cinema e cientistas, os quais eram acusados de “atividades antiamericanas”. Esse fenômeno, fruto da histeria anticomunista, filha direta da guerra-fria, teve também uma forte composição de oportunismo político e exploração da histeria coletiva face ao comunismo, desencadeando uma verdadeira caça às bruxas, isto é, a qualquer pessoa que fosse acusada de comunista, simpatizante do comunismo ou simplesmente indivíduos denunciados sem qualquer base concreta. Passado o período negro, depois que centenas de técnicos a artistas foram impedidos de trabalhar, ou seja, depois de atingido os seus principais objetivos, o macarthismo entrou em declínio, entretanto um dos principais aliados de McCarhty, Richard Nixon, chegou mais tarde à presidência dos Estados Unidos, com as conseqüências que todos conhecemos.
Eu fui feliz em Montevidéu.
Tendo vivido por uns anos na capital do Uruguai, anos precisos da juventude. Ou melhor, naquele período de vida que se está saindo da segunda década e entrando na terceira. Aquela é normalmente uma época em que as mulheres nos buscam porque podemos contribuir, e muito, para que elas cumpram o seu papel biológico, além de poderem descobrir e curtir, outros mistérios da vida. Por isso é que não há nada melhor e mais prazeroso – e prazer aqui entra no sentido estrito da palavra – dessa mesma vida. Por que as mulheres até chegar aos 30 anos (um pouco mais, um pouco menos) são obcecadas pela reprodução, o acasalamento é o objetivo básico delas, para felicidade nossa. Claro que existem as convenções sociais, terrível freios que se por um lado impõem limites, por outro são responsáveis pelas chamadas loucuras da vida. E que diabo será o ato de ver se não fosse as loucuras que fazemos na juventude?
Nessa fase, em relação a nós, homens, podemos ter posturas românticas, sonhadoras, responsáveis, comprometidas, mas, no fundo, no fundo, somos todos cafajestes (ou galinhas, como elas dizem). No horizonte de nossos desejos está uma cama. Sempre. Nós nela e levando a ocasional vítima que esteja em nosso alcance.
Esse período – entre os 25 e os 35 anos – vivi em Montevidéu. Não importa (hoje como naquele tempo, entre os anos 60/70 do século passado), que estivesse exilado, e que o exílio seja uma experiência assaz dolorosa; que o inverno lá fosse rigoroso – e mais rigoroso para um sertanejo nascido na cidade mais quente da Bahia, Jequié –, as roupas e, consequentemente, os abrigos fossem precários; que o trabalho, além de humilde (vendia jornais e revistas para sobreviver), fosse de parca remuneração, porque ali se aplicava a máxima da música: “Ganha-se pouco, mas é divertido”. No caso, claro, ganhava-se. Mas, quem está interessado em concordância?
Desse tempo ditoso, no Uruguai, em vez de colher pitangas, colhia mulheres. Dessa época, guardo particular lembrança de Sarah Miles. Mas precisamente de um filme que vi, talvez, em 1966, o qual, até onde pude averiguar, não foi exibido no Brasil. Esse percalço – o de não ter sido exibido entre nós – causou-me trabalhos e dores de cabeça. É que, nos momentos de saudade, quando a presença de Sarinha em mim era esmagadora, procurava lembrar-me dele, mas só tinha registrado em minha memória, além do rosto sedutor de Sarah – que me seduzira perdidamente – o título que o filme recebera no Uruguai. Ora, como é sabido de ceca a meca e olivais de Santarém, a única maneira segura de se localizar um filme é saber o seu título original, além de outros dados, como o nome do diretor, o ano, etc. No entanto, o título original é fundamental, uma vez que cada país, ao traduzi-lo, adota um título que pode, não só ser diferente do original, como pode ser diferente de um país para outros, mesmo que do mesmo idioma.
Como, pois, falar com meus amigos, nas tertúlias do Clube do Bode – quando se degusta a maravilhosa carne caprina, fala-se fundamentalmente de cinema, tomando-se uma taça de vinho tinto, fazendo-se ocasionalmente algumas incursões pela vida alheia – daquele avassalador amor de minha vida?
Lembrava-me, como o disse, além do nome do objeto da minha adoração, o título em espanhol: Yo fue feliz aquí. Cuja tradução, obviamente, seria “Eu fui feliz aqui”, caso esse fosse, em espanhol, a tradução literal do original.
Por outro lado, com apenas aquele dado, o qual se resumia ao nome da atriz principal, já que o título usado no Uruguai não me servia para nada, salvo se fizesse uma viagem para pesquisar lá, se não viesse encontrar uma relação (filmografia) daquela atriz, jamais descobriria o título original, perdendo, assim suas pegadas, uma vez que o filme não tinha sido exibido no Brasil.
Anos vivi esse tormento, até que decidi recorrer ao meu amigo, o poeta Jean Scharlau, gaúcho, que nos visitou, especialista, entre outras habilidades, em consulta na internet, quem, finalmente, me salvou.
Agora sei que esse filme não foi lançado comercialmente no Brasil, que o seu titulo original é I was happy here, o que, em espanhol, era reproduzido ao pé da letra; que fora lançado mesmo em 1966, e tivera como diretor, Desmond Davis; que, além de Sarah Miles, contara com o ator Cyril Casack, e que a sua duração era de 92 minutos e que o filme era em preto-e-branco, coisa que me lembrava perfeitamente.
Sobre esse diretor, o estudioso de cinema, Rubens Ewald Filho, em sua obra(*), diz, que fora um “ex-iluminador e diretor de curtas que passou à direção graças a Tony Richardson (também diretor inglês), que produziu ‘Um Amor sem Esperanças’ (para ele). Mas sua carreira comercial e artística tem sido acidentada”.
Toda essa alegria, a de ter descoberto os antecedentes daquele meu grande amor, devo ao poeta Scharlau – conhecido carinhosamente por um círculo reduzido de amigos muito íntimos, como Dartajean, paladino das causas relacionadas à defesa dos pobres e oprimidos, não somente do Rio Grande do Sul, mas de urbi et orbi, ou seja, daquele mundo que Jorge Amado chamou de Oropa, França e Bahia.
Foi justamente ao constatar que o título daquele filme em que se dera meu encontro com Sarah, no original era o mesmo que em espanhol, que resolvi colocar nessa crônica de memórias o que consta acima.
Isso dito, volto ao meu amigo e às consequências do que ele me disse. Pois é, o amigo poeta fez-me lembrar de um amor imorredouro. Então, por associação, lembrei de Acapulco, daquelas noites que passamos juntos (Sarah e eu), do muito que nos amamos; lembrei de Punta del Este, daquelas noites que passamos juntos (Sarah e eu), do muito que nos amamos; lembrei de Mar del Plata, daquelas noites que passamos juntos (Sarah e eu), do muito que nos amamos; lembrei dos mares do Sul, daquelas noites que passamos juntos, do muito que nos amamos. E sofri pelo tempo que passou, tempo que não volta.
Vendo os fragmentos do filme – que Jean me mandou –, seu rosto belo e adorado, pensei que ela, como eu, devia estar um pouco destruída pelo perpassar do tempo, sempre muito cruel com as mulheres. Lembrei-me de seu rosto redondo, seus lábios carnudos. Lábios que, com sofreguidão, beijei muitas vezes.
Pena que Sarah Miles nunca tivesse tomado conhecimento do ardor daqueles beijos, da grandeza daquele amor e, tampouco, dele tivesse participado.
© Araken Vaz Galvão
(*)“Dicionário dos Cineastas”, 2ª Edição, L&PM Editores, Porto Alegre, RS, 1988, pág. 133.
Postscriptum
Com essa palavra latina, coloca-se ao final do texto, em última hora, aquilo que se esqueceu. Ou, como diziam os avós, aquilo que ia ficando no tinteiro, no tempo em que se usava esse objeto para molhar as penas de tinta com que se faziam as letras e, em consequência, as palavra, as frases. Em fim, se construíam as mensagens.
A tradução dessa expressão – que é usada comummente em sua forma abreviada: PS – poderia muito bem ser “escrito depois”, nesse caso a abreviatura ser, logicamente, ED, no entanto a tradição acabou por impor, mesmo nos meios populares, a norma culta, herança, talvez, dos tempos em que toda a cultura do mundo era conservada em latim, circulando de modo bem restrito entre poucos.
Bem, mais essa introdução está, quiçá, um pouco fora de propósito e lugar. E, só foi escrita, porque tenho a mania de desejar dividir o pouco que sei com quem ainda sabe menos que eu. É usado o advérbio “ainda”, para deixar patente que desejo dizer “a todos aqueles que, até agora, devido a pouca idade que possuem, sabem menos do que eu”, que já estou no ocaso da vida e, consequentemente, tive oportunidade de acumular uma quantidade maior de conhecimentos. Sendo mais que justo repartir o pouco que amealhei vivendo, coisa que estou a fazer neste momento e com uma razão, ligada precisamente ou uso da expressão latina postscriptum.
E essa razão foi porque me lembrei de dois importantes filmes, ambos japoneses, os quais tenho que citar. Trata-se de, respectivamente, “Onibaba – A Mulher Demônio” (Onibaba), de 1964, dirigido por Kaneto Shindô; e “A Mulher na Areia” (Suna no Onna), 1964, dirigido por Hiroshi Teshigahara, expoente da nouvelle vague japonesa, conhecida lá pelo nome de Nuberu Bagu. O primeiro deles acaba de ser lançado em DVD e é, como diz o vulgo, imperdível. O segundo infelizmente não é encontrado.
Sobre o segundo, começando do final, falarei apenas o que lembro, passados que são mais de quarenta anos que o vi, ocorrência que se deu na capital do Uruguai, Montevidéu, nos solitários tempo do exílio.
“Um entomologista amador resolve sair da cidade-grande e passar o fim de semana numa área desértica do Japão, a fim de coletar insetos raros. Ele pretende pernoitar numa pequena casa de madeira à qual é conduzido por alguns nativos. A casa fica no fundo de uma vala (buraco, melhor dizendo) rodeada por areia, é necessário usar uma escada de cordas para descer. Lá, habita uma mulher de aparência sofrida. A tal mulher conta que o marido e a filha foram soterrados durante uma tempestade, pouco tempo atrás. O homem não lhe dá muita importância. De madrugada, ele acorda e observa que a anfitriã cava incessantemente a areia ao redor da propriedade, colocando-a em sacos puxados pelos moradores da região. Ele oferece auxílio, mas a mulher replica: ‘não na primeira noite’. Sem entender direito, o homem dá risada e anuncia sua partida de volta à cidade programada para o dia seguinte. No entanto, naquela manhã, percebe que a escada de cordas desapareceu; mal poderia imaginar que ele seria capturado daquele jeito, tal como os besouros de sua coleção.”
Com essa introdução, encontrei na Internet, dizendo tratar-se de “Resenhas e reflexões sobre grandes filmes, por Pierre Willemin”, uma série de considerações(1), algumas das quais não comparto, razão pela qual não as transcrevo.
No transcorrer da trama, é sugerido que aquela areia – que é extraída próximo ao mar, contendo, portanto, teor elevado de sal, não sendo apropriada para a construção civil – e que deve ser a razão de desabamentos em vários prédios populares – é vendida em Tóquio e em outras grandes cidades do Japão. No entanto essa sugestão de denúncia de corrupção – coisa comum no capitalismo ou em quaisquer empreendimentos humanos, e mais corriqueiros será onde o capitalismo for mais desenvolvido – não é o que interessa no filme. Isso julguei eu, quando o vi. O que mais me impressionou naquele filme, naquela época, foi a forma sutil e pungente como o erotismo é tratado. Afinal, uma mulher e um homem em plena posse do seu vigor físico da juventude, presos em um exíguo espaço físico, um respirando o mesmo ar que o outro – e um ar impregnado de eflúvio, alguns desses fluídos diretamente relacionados com a função sexual – só podiam se atrair e possuir um ao outro.
Por outro lado, o sexo mostrado no cinema, na maioria das vezes, descamba para o banal ou para o grosseiro. Em “A Mulher na Areia” isso não sucede, ao contrário, são mostradas as cenas de sexo e erotismo mais belas que o cinema já mostrou. Tudo é sutil e delicado, impregnado de desejo e sensualidade jamais vistos.
Já em “Onibaba – A Mulher Demônio”, filme em que o sexo é um forte componente – a versão que vi tinha o título, em espanhol, “Onibaba – El Mito del Sexo” – embora seja um filme primoroso, a proposta de análise é outra.
O enredo se desenvolve em torno de duas camponesas, uma mulher mais idosa, que vem a ser a sogra da mais jovem, cujo marido não se sabe se estar morto ou desaparecido. Elas “(...) sobrevivem a uma guerra medieval matando samurais perdidos e vendendo suas armas para conseguir alimento. Um dia aparece na cabana da velha um samurai com uma máscara assustadora e lhe pede para mostrar o caminho através da vegetação da área. Obcecada pelo desejo de ver seu rosto, ela o mata e, em um dos momentos mais chocantes da fita, remove a máscara e encontra uma das vítimas da bomba atômica, os chamados de hibakusha(2). A velha começa a usar a máscara para assustar a nora, quando essa sai para encontrar-se com um vizinho, e, em uma cena terrível, a máscara fica permanentemente grudada ao seu rosto. A mulher mais jovem, relutantemente, abre a máscara com um machado e encontra o rosto ensanguentado e torturado de uma hibakusha viva, e foge horrorizada. O filme termina com três planos repetidos mostrando a velha perseguindo a mais jovem aos gritos ‘Não sou um demônio, sou um ser humano’.”
Mas, neste caso, vamos aguardar a chegada da cópia que comprei, para conferir se as minhas lembranças não estão alteradas.
© Araken Vaz Galvã
(1) Entre as achei curiosas, encontra-se a que se segue: “O aprisionamento (do entomologista na casa d’ A mulher da Areia) faz referência ao Mito de Sísifo, com o qual o escritor Albert Camus negou com veemência o existencialismo. Para Camus, ‘constatar o absurdo da vida pode não ser o fim, mas apenas o começo’. O ser humano passa a não ter controle sobre o próprio destino, deve apenas ajustar-se às condições que lhe são impostas (ao contrário do que a escola existencialista pregava no início do século passado)”.
(2) Nome dado, com sentido pejorativo ou discriminatório, às vítimas das bombas atômicas jogadas em Hiroshima e Nagasaki.
O Segredo de Brokeback Mountain
Alguém – não me lembro a pessoa – mandou-me algo que circulava na internet sobre o homossexualismo. Melhor, sobre a crescente aceitação desse comportamento sexual pela atual sociedade, para alguns, dita moderna; para outros, dada como perdida ou sem norte.
Tratava-se de uma piada configurada em um desabafo de uma pessoa que ironizava essa crescente aceitação do homossexualismo da seguinte forma: “Antes era proibido; depois passou a ser tolerado; agora está sendo está sendo aceito. Vou-me embora daqui antes que se torne obrigatório”.
Mas além do politicamente incorreto que essa piada possa ser, em uma sociedade que deseje ser democrática, ela é perfeitamente normal. Afinal, na democracia é dado (ou seria dado) a todo cidadão o direito de concordar ou discordar de quaisquer opiniões, posturas, atitudes ou opções. A liberdade de se ter opinião divergente daquela que é aceita pela maioria é (ou deveria ser) a essência mesma da democracia.
Afinal, disse-o Voltaire: “Não concordo nem uma palavra do que dizes, porém defenderei até a morte o teu direito de dizê-las”. Pode ser que as palavras do filósofo francês não tenha sido textualmente estas, porém o sentido foi este.
O que não podemos aceitar são manifestações de preconceitos, da mesma forma que não se pode toler o direito de se discordar, sob o argumento que discordar é o mesmo que discriminar, pois isso é coisa do nazismo.
Entretanto, não é sobre Voltaire nem sobre direitos democráticos que desejo falar; o que disse até agora não passou de simples digressões sobre as deformações que o conceito de democracia (e de liberdade) vem sofrendo em nome de supostos direitos de escolha de quem quer que seja, porque dessa forma estamos caminhando a passos largos para o revés do parto, ou seja, para a repressão aos mais sagrados dos direitos, o de pensar diferente. Aliás, quem tem comportamento diferente (com ou sem aspas) não pode discordar de quem não pensa como ele.
Antes de continuar, porém, ao falar em comportamento de maiorias e minorias, é preciso não exagerar nem na concordância com tudo que uma decide, nem aprovar tudo que a outra opta. E se a democracia se baseia, em última análise, em se aceitar a decisão da maioria, também se alicerça no respeito às posições das minorias. Dito isso, pode-se afirmar que nem sempre a maioria teve razão. Afinal, o nazismo – voltamos a ele – contou sempre com o apoio generalizado da maioria da população alemã...
Dito isso, desejo afirmar que a minha intenção mesmo é falar sobre o filme “O Segredo de Brokeback Mountain”, que não vi e que não desejo ver em respeito a uma criança, hoje com 75 anos, que amava os faroestes, com seus cowboys – cujos revólveres, mesmo sendo de seis tiros, possuíam intermináveis cargas de balas – que trocava socos sem desmanchar os topetes engomados; que nunca sujavam suas imaculadas roupas, que beijavam as mocinhas no final, mesmo quando partiam para cumprir suas sinas justiceiras algures.
Uma criança – mesmo envelhecida – que se empolgou com as aventuras de Hopalong Cassidy; com as proezas de Tom Mix e seu cavalo; até mesmo com o cowboy, cujas roupas – hoje constata – eram um tanto carnavalescas, como Roy Rogers, com suas canções ingênuas, as quais, mais tarde, eram cantadas em português por seu pastiche caboclo – de nome Bob Nelson. Aquele menino, hoje envelhecido, exige mais respeito aos seus heróis daquelas longínquas tardes de domingo.
Aquela criança, já bastante envelhecida (repete-se) – quiçá também bastante amargurada – não pode aceitar que seus másculos heróis (das tardes de domingo), em nome de um “politicamente correto” que a nada respeita, sejam colocados no mesmo saco de gatas, falsas.
O homem vive de mitos, por isso os criou através dos tempos. Em nome dessa essencial tendência aquele menino, que ficou velho, aceita que os partidários e praticantes do homossexualismo também crie os seus. Tudo bem, é um direito. Não se discute. O que é imperdoável é que se tente destruir os mitos alheios, o mito do’zotros.
Cowboys eram, sempre foram, símbolo da masculinidade, da virilidade, da nobreza e da luta contra as injustiças. Transformá-los naquilo que o vulgo, de uma forma um tanto grosseira, chama de boiola, bicha, viado, baitola e quejando, e que os defensores dos modernismos chamam de gay, em nome ao respeito às opções sexuais alheias, é um acinte as mais gratas recordações da infância de muitas gerações. Afinal, para ser plural o mundo tem que ser diverso, ainda que os irônicos e irreverentes digam que se a exceção fosse a regra, Deus não teria criado Adão e Eva, mas Adão e Ivo...
O grande escritor português Eça de Queiroz disse certa feita, no auge da socialização generalizada que imperava na Europa: “Socializemos tudo, menos as escovas de dente.” Ademais, respeitar a dita opção sexual de uma pessoa não significa concordar com a destruição de suas recordações da infância. E, tampouco, em fazer a mesma opção. É preciso dar-se um basta a essa padronização de comportamento, afinal foi por não terem dado um não em Munique, que Hitler invadiu a Polônia em 1939, dando o início a II Grande Guerra, cujo resultado mais eloquente foram mais de 40 milhões de mortos... É preciso um basta, pois, afinal, toda unanimidade é burra – disse-o Nelson Rodrigues.
Aliás, essa coisa de opção deve ser vista com reserva, afinal há cientistas dizendo que está “opção”, não é livre, pois é fruto de uma determinação genética. Entretanto – e que isso fique bem claro! – não vejo porque deva assombrar a quem quer que seja a pessoa com quem se dorme, da mesma forma que não devemos impor – a quem quer que seja – que opte em dormir com quem os reguladores de comportamento alheio determinam com quem se deve dormir...
Toda sociedade criou regras de comportamento – algumas justas, outras injustas – através dos tempos e, talvez por isso, chegamos até aqui. Porém, se optamos sorrateiramente por eliminarmos essas regras, estaremos dando razão (quase póstuma) àquilo que se atribuía, na maioria das vezes erroneamente, aos anarquistas. Afinal, em uma sociedade em que tudo será permitido, os fisicamente mais fortes e os que possuam mais dinheiro poderão tudo.
Com isso, volto a Eça de Queiroz: socialismos (ou anarquizemos) tudo, menos as escovas de dentes... Até mesmo porque eu continuo preferindo a dormir com minha mulher, talvez por costume ou – quem sabe...? – por já estar velho e não ter opção de poder dormir com outra mulher mais jovem. Aliás, para que dormir com uma mais jovem se não tenho mais o vigor juventude para satisfazê-la convenientemente?
© Araken Vaz Galvão
O Poderoso Chefão II
Tendo identificado, em crônica anterior, um dos conflitos formadores daquilo que se poderia chamar de ideologia da Máfia nos Estados Unidos, da forma como é retratada em “O Poderoso Chefão”, cabe falar do filme propriamente dito.
Ainda na primeira parte, a premissa aventada no artigo anterior é confirmada. Não só quando Clemenza diz que a cada cinco, dez anos, há uma guerra interpares. Como quando Michael diz a Kay que o pai dele não faz nada diferentes daquilo que faz um homem poderoso, um governador, um presidente, por exemplo. Ao que ela retruca que ele é ingênuo, que um presidente não manda matar. E ouve: Quem está sendo ingênua, Kay? Este é um dos momentos mais emblemáticos do filme. É onde mostra que o chamado establishment daquele país possui a mesma concepção orgânica de uma família mafiosa.
No segundo episódio, o mais longo dos três – que infelizmente não contou com a participação de Marlon Brando –, já com Michael Corleone como capo mafioso, ou seja, como o Padrinho, há também como uma volta às origens, quando vemos como Vito Corleone nasceu e como foi levado a dar os primeiros passos em direção aos Estados Unidos e, ali chegando, em direção ao crime. Não há dúvida que essa parte é bastante esquemática, afinal se não houvesse tantas injustiças – parece dizer o filme a toda hora – Vito Corleone não teria ingressado no mundo do crime. É nessa parte também que vemos o “espírito de justiça” do futuro grande chefe do crime organizado.
Já tendo Michael Corleone como novo chefe, vemos também que ele, como o pai, não é um homem mau, é apenas pragmático, embora no final da primeira parte já tenha mandado matar todos os cinco chefes das famílias mafiosas – em uma das seqüências mais belas do filme, feita de forma sincronizada com o batizado – e o próprio cunhado, porém o fez porque aquela atitude era indispensável à segurança dos seus negócios e dos seus cúmplices. Perdão, sócios.
Há a registrar ainda que, como o seu pai, Michael Corleone é um homem solitário. Bem mais solitário, diga-se de passagem, pois aquele conseguiu manter unida a família, e ele perde-a irremediavelmente. Primeiro a mulher e, mais tarde, acaba perdendo os filhos também. Ganha, porém, duas adesões importantes: a da sua irmã – a quem ele tinha providenciado o óbito do marido – e de um sobrinho – filho bastardo do seu irmão mais velho, já morto – que acaba por ocupar o lugar de um filho. Aliás, esse sobrinho, logo nas primeiras aparições mostra que mesmo tendo herdado o gênio explosivo do pai, é dono também do pragmatismo do tio. A seqüência em que ele diz aos bandidos que podem matar a mulher com quem está dormindo, pois “ele mal a conhece” é de um pragmatismo – leia-se: cinismo – digno do melhor capitalista moderno.
Entre idas a Sicília do tempo jovem de Vito Corleone e a consolidação de Michael como novo boss da família, o filme chega ao final. Na terceira parte – a mais fraca, talvez, das três – o novo padrinho tenta legalizar os negócios da família, em uma atitude que muito poderia ser a remissão tardia de uma promessa feita a seu amor perdido: Kay. A jogada que tenta é ambiciosa e desperta ciúmes entre seus pares. Enquanto alguns vêem no gesto uma traição, outros interpretam como sinal de velhice, ou seja, de fraqueza. A união de ambas as partes leva a um espetacular atentado – só possível no cinema – em um salão de um cassino, mas Michael sai milagrosamente ileso. Entretanto está doente, além de atormentado, de certo modo, pelo pragmatismo que o levou a mandar matar o próprio irmão e acometer outras barbaridades.
Nessa parte há algumas curiosidades: O domínio que a Máfia mantinha sobre Cuba, a queda de Fulgêncio Batista e conseqüente subida ao poder de Fidel Castro, configurando a perda de um Estado Nacional para o crime organizado.
No desenrolar da ação, fica claro que o crime organizado dominava também a estrutura econômico-financeira do Vaticano. Como ficção nos é revelado uma parte do real escândalo em que esteve envolvido o Banco do Vaticano. Esse fato verdadeiro implicou em uma série de misteriosas mortes, as quais, no filme são mostradas como um novo ajuste de contas, nova matança – a eterna luta pelo poder, configurado esse na posse do dinheiro.
Michael Corleone está velho e doente, seu sobrinho assume o poder, em uma transferência pacífica – digamos assim – do bastão de mando, com o nome de Vincezzo Corleone. Porém, essa ascensão tem seu preço, Vincezzo tem que renunciar ao amor da prima, a filha de Michael. Há toda uma série de cansativas seqüências no teatro, onde se apresenta o tenor, filho de Michael, interpretando a ópera “Cavalaria Rusticana”, quando tentam assassinar Michael. No final do espetáculo, que é também o final do filme, em um tiroteio na escadaria do teatro, a filha de Michael, Mary, é atingida por uma bala que se destinava ao pai. A seqüência é a mais bela do filme – e lhe dá o toque de tragédia. Sem saber bem o que ocorreu, Mary diz:
— Pai. – e cai morta.
O pai, que também demora em assimilar a fatalidade. Grita. É um grito agônico. Inicialmente aparece em primeiro plano a boca aberta, sem que se ouça nenhum som. Depois, como que saído na alma, ouve-se o grito desesperado.
A seqüência final é patética, ainda que seja, junto com a da escadaria, a mais bela do filme. Velho e sozinho, acompanhado apenas por um cachorro vira-lata, Michael morre.
© A. Vaz Galvão
A SUBSITUTA
O Poderoso Chefão I
Francis Coppola não é o que se poderia chamar de cineasta muito produtivo, além de pertencer a uma geração que acredita(va?) que o consumo de drogas(1) era sinônimo de liberdade. Como também nem tudo do que produziu, como diretor, foi de qualidade muito elevada. Porém, inegavelmente, algumas das suas obras foram marcantes. Destacaria, entre essas, Além da trilogia “O Poderoso Chefão”, “A Conversação”, “Apocalipse” e “Cotton Club”. Dessas obras(2), ainda que pouco vista no Brasil, uma das mais curiosas e emblemáticas, do meu ponto de vista, é “A Conversação”. As mais cultuadas, entre os cinéfilos de nível intelectual mais elevado, estão “Cotton Club” e “Apocalipse Now(3)”. A mais popular, indubitavelmente, é a trilogia “O Poderoso Chefão”. Sobre ela pretendo falar.
Antes, porém, é vital assinalar que em outro filme de Coppola, “Cotton Club”, que tem o famoso clube noturno de Nova Iorque, da primeira metade do século XX, como centro da ação, fala também do mundo dos gângsteres, que sempre dominaram aquele ramo de negócio. Em determinado momento, em que aparece a entrada do célebre Lucky Luciano naquele mundo, é citado o nome Coppola, como de outro gângster importante. Deixando no ar a sugestão que esta família também esteve envolvida com o mundo do crime, nascendo daí, possivelmente, o fascínio do diretor pelo assunto.
Mas, não vou entrar em mais divagações, como disse, pretendo falar sobre aquela trilogia. Faço-o a pedido do meu amigo Denassau. Poucas pessoas conhecem esse meu amigo, por isso peço licença para apresentá-lo. Denassau é porteiro de um modesto edifício em Salvador, que conheceu seus quinze minutos de glória devido a um crime ocorrido no prédio em que trabalha. Não que ele tivesse relacionado com a ocorrência, apenas foi instando pela polícia e pelos jornais a falar sobre o que poderia ter visto. Como nada vira, pouco pode falar, por isso sua exposição na chamada mídia foi mínima, mas, de qualquer forma apareceu no jornal local.
Naquela ocasião eu mantinha alugado um apartamento naquele mesmo edifício e uma coincidência fez com que eu descobrisse que ele também era, como eu, afeiçoado ao cinema. E, coisa rara, gostava de filmes de qualidade, dos chamados clássicos. Foi por me ver com uma sacola com alguns DVDs, ele, com aquele jeitão manso, típico dos baianos das classes menos favorecida, depois de alguns comentário sobre seu amor ao cinema, pediu-me:
— Meu patrão, o senhor que é escritor, porque não escreve alguma coisa sobre “O Poderoso Chefão”?
Tudo, bem, Denassau, aqui, com algum atraso, está à satisfação do seu pedido. Isso feito, passo ao comentário sobre a famosa trilogia.
Essa série de filmes nasceu da adaptação de um best seller, o que significa, de saída, que foi de uma obra popular, sem maiores compromisso com qualidade literária. Quem leu o livro sabe por que falo assim. O seu autor, Mário Puzzo, buscava traçar um retrato da Máfia ou Cosa Nostra nos Estados Unidos, a qual, graças ao engenho do Coppola, no filme, foi bastante melhorada, atingindo aquele objetivo por linhas transversas, como se diz.
A trilogia fílmica tem aproximadamente nove horas de duração, sendo a primeira parte bem mais elaborada que as outras duas, e com um conteúdo dramático mais denso. Com diálogos muito irônicos e mordazes, destacando a soberba atuação de Marlon Brando.
No seu conjunto a trilogia tem a forma de uma tragédia, com fortes tons operísticos. Não faltando também duras críticas ao modo de vida dos Estados Unidos – em particular a relacionada aos imigrantes –, suas divisões étnico-sociais internas, o problema do poder e a promiscuidade entre o crime e a política. Sobre tudo isso paira, impoluta, a solidão como companheira única e inseparável dos homens poderosos. Há ainda, mais sutil, uma dicotomia entre duas categorias de sonhos. O sonho da busca do paraíso americano sonhado pelos habitantes do paupérrimo sul da Itália (Sicília ou Calábria), os quais descobrem na pele que o sonho americano, ainda que folheado a ouro, não passava de uma falácia.
Essa frustração – diga-se de passagem – cria um paradoxo, na forma de uma saudade renitente da miserável pátria perdida que se choca com a presença de uma nova pátria rica, mas discriminatória. Essa nostalgia maltratou tanto aqueles imigrantes que gerou na mente dos seus filhos uma visão idílica da terra dos pais, surgindo daí um novo tipo de sonho, o sonho da idealização de uma terra – onde ficaram as raízes ancestrais – que só existia na forma tecida pela saudade, aquela lembrança formada pelo o apego relacionado ao paraíso perdido do lugar onde se nasceu. No caso, onde nasceram seus pais, fonte das suas mais puras fantasias da infância – não importa o quão essa infância tenha sido miserável.
Em outras palavras, poder-se-ia dizer que, no imaginário do imigrante de “O Poderoso Chefão”, há duas Américas, a que ele sonhou e a que ele encontrou. Da mesma forma que, para seus descendentes, também passa a existir duas Itálias (Sicília ou Calábria, não importa), a que os filhos dos imigrantes que fizeram fortuna, via criminalidade, aprendem a idealizar e a Itália paupérrima (Sicília ou Calábria, não importa) que eles, ricos e poderosos, via crime organizado, eventualmente visitavam.
A abertura do primeiro filme é impactante. Sob uma tela escura – e a escuridão é sempre associada com o desconhecido – uma voz, inicialmente sem rosto, diz que ama a América, que fez tudo para ser aceito como um bom americano (leia-se: estadunidense), entretanto a América não o ama e, tampouco, o vê como um cidadão, sequer como gente, pois para ser um verdadeiro cidadão daquele país tem que ser um WASP(4). Frente àquele imigrante que ingressara na classe média dos Estados Unidos, ainda iludido com o american dream, surge aquele que já não sonha, o pragmático que sabe que aquela América tem dono, ademais nela não há espaço para quem não seja “branco, anglo-saxão e protestante” e rico, muito rico, aquele imigrante que sabe que para gozar das benesses do sonho americano é preciso criar uma espécie de Sicília rica nos Estados Unidos.
No próximo número continuarei falando um pouco mais sobre esse filme.
© A. Vaz Galvão
(1) Isso que estou escrevendo, não é uma afirmativa, mas uma suposição, relacionada com o que se lê na impressa ou vê na mídia, como foi o caso dito sobre o festival de alucinógeno durante a filmagem de “Apocalipse Now”, baseado na obra de Conrad, “Coração nas Trevas”. No o que é dito aqui, fica mais uma vez registrado a minha ojeriza para com essa panacéia dos nossos tempos.
(2) “O Poderoso Chefão”, primeira parte, foi feito em 1972, nesse ínterim, foi feito “A Conversação”, em 1974; seguiu-se “O Poderoso Chefão”, segunda parte, neste mesmo ano, “Apocalipse Now” em 1979; em “Cotton Club”, em 1984; e, finalmente, “O Poderoso Chefão”, terceira parte, em 1990.
(3) Esse filme, cantado em prosa e verso pela imprensa colonizada do nosso país, pareceu-me completamente incompreensível. Recentemente vi na TV que os produtores cortaram da obra original uma hora ou mais, explicando-se, dessa forma, o caráter confuso da narrativa.
(4) Sigla em inglês de “branco, anglo-saxão e protestante”, os descendentes (ou supostos) dos fundadores das 13 colônias da costa Leste.
A SUBSITUTA
